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Epoch, uma Revolução na Magia?

June 28, 2015 | By admin

“Não está morto o que eternamente jaz inanimado, e em estranhas realidades até a morte pode morrer”

H.P. Lovecraft


Epoch: The Esotericon & Portals of Chaos é o mais recente livro de Peter J Carroll, lançado em março do ano passado. Só tive a oportunidade de lê-lo recentemente e gostaria de compartilhar algumas ideias realmente ousadas levantadas na obra, assim como minhas reflexões sobre elas. Fruto de mais de quatro anos de experimentos mágicos e pesquisas, Epoch já se tornou um dos livros mais importantes da Magia do Caos. Dentre alguns dos novos sistemas apresentados estão a Caobala (a Cabala Caoísta), uma nova Magia Planetária (astrologia para caoístas) e Magia Estelar (uma nova e ambiciosa versão do Necronomicon).


Quase 30 anos atrás, quando Carroll escreveu o Livro Zero da Magia do Caos, chamado Liber Null, o primeiro feitiço que aparecia no livro era “Eu Desejo Obter o Necronomicon”, um exemplo para ilustrar o método de Austin Osman Spare para a construção de sigilos. Segundo o autor, após tantos magistas terem contato com as cinquenta mil cópias desse feitiço circulando por aí, subconscientemente realizaram uma “conjuração longa”, conforme recomenda a teoria da magia do caos (CMT) até que o Necronomicon Caótico finalmente se manifestou no Epoch. Embora o autor tenha mencionado esse ponto em tom de piada (é bastante desafiador perceber quando Peter Carroll está tentando ser sério ou brincando em cada frase que escreve), não deixa de ser uma referência intrigante e poderosa.


A intenção do Liber Kaos, segundo livro do autor, era propor uma substituição “definitiva” (ou, conforme o autor, definitiva até que surjam outras no futuro) para o sistema da Magia Sagrada de Abramelin (sistematizada no Liber KKK). Seguindo essa tendência, o Epoch apresenta muitas novas versões para modelos de magia já consagrados, tais como cabala, astrologia, tarot, alquimia, magia elemental, magia divina, geomancia, dentre outros. O objetivo não foi apresentar uma nova versão completa e detalhada para todas essas áreas complexas, mas anunciar o início de algumas transformações significativas em sistemas clássicos. Ele seleciona alguns desses temas para abordar em maior profundidade.


O livro começa com um relato sobre a história da magia desde a Antiguidade Clássica. Ele percorre a biografia de alguns magistas influentes, como Samuel Liddell MacGregor Mathers (que ele sugere ser o “Marx do ocultismo”, já que Mathers vivia em museus e bibliotecas para pesquisar e ler tudo o que já havia sido escrito sobre magia até então e reunir tudo num novo modelo, que culminou nas práticas da Golden Dawn), Aleister Crowley (que teria basicamente adicionado sexo e drogas ao sistema de Mathers) e Kenneth Grant (que divulgou os trabalhos de Austin Osman Spare e apontou a relevância mágica dos escritos de Howard Phillips Lovecraft).


Após sua extensa análise da história da magia, que começou com reflexões de alguns conceitos de filósofos pré-socráticos como Pitágoras, e pós-socráticos como Platão e Aristóteles, passando pelo Império Romano, hebreus e ascensão do cristianismo, Carroll conclui que a magia tradicional (particularmente o hermetismo, a cabala e o gnosticismo) possui fortes influências neoplatônicas e que uma parte considerável do que conhecemos por magia hoje tem raízes num paganismo misturado com monoteísmo, o que foi o resultado de um processo histórico.


Portanto, os ocultistas do século XXI poderiam estar estudando qualquer outra coisa se o curso da história tivesse sido um pouco diferente. Em vez do tarot que conhecemos hoje poderíamos ter cartas com simbolismos variados. Dependendo de qual povo venceu determinada guerra, o Deus, a religião ou a filosofia do vencedor conquistaria seu direito de figurar numa das cartas. Essas coisas vão passando adiante conforme o costume, mas não é tão simples, pois envolve também questões políticas complexas e lutas de poder: o que pode ser ou não magia acaba sendo definido por uma pequena elite de pensadores que ganharam as graças dos senhores da guerra; os senhores do poder do céu ou do poder da terra (dinheiro), conforme o Deus valorizado em cada época.


Quando estudamos história, mitologia e magia tradicional, aprendemos de onde veio aquilo que sabemos e vivemos hoje. Na verdade, há várias “histórias” ocorrendo paralelamente, que variam tanto conforme o foco que desejamos dar quanto conforme a opinião do historiador, que nunca conseguirá ser completamente imparcial, por mais que se esforce. Na prática, algumas partes da história acabam sendo esquecidas, assim como boa parte da magia (ou do que poderia ter adquirido o status de magia se Platão e Aristóteles não tivessem influenciado tão fortemente o cristianismo pela hermenêutica de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, respectivamente).


Como resultado, a  magia tradicional de hoje possui fundamentos judaico-cristãos muito fortes. Misturado a essa supremacia monoteísta existem elementos de paganismo embaraçosamente infiltrados. Não que seja melhor ou pior haver mais ou menos paganismo em determinados sistemas. A questão é que muitos magistas atuais não aceitam diversos sistemas contemporâneos de magia (especialmente os da Magia do Caos) como válidos porque não se encaixam em suas tabelas de cores e planetas (que poderiam conter quaisquer outras cores ou planetas se o resultado de determinada guerra tivesse sido diferente, se Giordano Bruno não tivesse ido para a fogueira, se a Biblioteca de Alexandria não tivesse livros queimados, etc).


“Na verdade, Deus quis que todas as coisas fossem boas e que, no que estivesse à medida do seu poder, não existisse nada imperfeito” disse Platão, em seu livro Timeu, no qual também fala dos cinco elementos relacionados aos sólidos platônicos (e o dodecaedro, segundo Plutarco, com seus 12 lados representaria os signos do zodíaco) e descreve uma história da criação do mundo muito semelhante à encontrada no Gênesis bíblico.


Na magia clássica costuma-se encontrar semelhanças entre as religiões, filosofias e sistemas de magia dos mais diferentes povos de diversos lugares e épocas. Isso poderia significar que existe uma verdade objetiva a qual todos os seres humanos chegariam, somente interpretando-a de forma diferente conforme sua cultura. Ou também pode significar que não há uma verdade objetiva, mas que o cérebro humano geralmente segue um padrão, precisa de coisas parecidas e acaba inventando as mesmas coisas para apaziguar o temor que sentem da vida e da morte e preencher suas necessidades diárias (criando assim Deuses e conceitos que sirvam ao propósito de transformar as emoções e obter conquistas materiais). Se existe uma verdade objetiva (a “coisa em si” de Kant) ou se todo o mundo material é uma ilusão (conforme defendido por Berkeley ou mesmo pelo budismo) permanece uma questão metafísica sem solução.

No caoísmo costuma-se adotar um enfoque pragmático: não interessa se existem mesmo deuses, verdades, a Grande Obra, a “Pequena Obra” ou a “Obra Minúscula Ligeiramente Grande”. A magia envolve metas como autoconhecimento, transformações mentais e materiais, dentre muitas outras que se possa desejar. Caso o magista deseje obtê-las por um meio que funcione para si (não importando se esse método se encaixa ou não nas leis herméticas ou mapas astrológicos da magia tradicional) e consiga obtê-las pelo método que inventou, por que ele não seria válido? Por que um servidor teria um poder menor que um Deus se possuir uma egrégora igualmente poderosa para alimentá-lo?


Para alguns magistas é um escândalo existir uma operação para evocar os Grandes Antigos de Lovecraft, que estariam contidos “apenas” num livro de literatura. Possivelmente foi este um dos parâmetros que Peter Carroll usou para fazer questão de incluir exatamente essa operação em sua “Árvore da Vida Caoísta” incluindo o contato e conversação com o Deus Cego, Louco e Idiota (Azathoth) como a operação máxima da magia. Afinal, no panteão de Epoch, o Deus cristão (JHVH) é apenas mais um de vários deuses megalomaníacos (com todo o respeito) encontrados no panteão de várias culturas (em suas cartas também há Éris, Babalon, Baphomet, Bob Legba, dentre outras simpáticas personalidades).


Epoch consiste num novo olhar sobre a magia: cartas incluindo divindades de diversos povos, ou mesmo da cultura popular; um sistema de astrologia incluindo planetas ou astros não convencionais; uma cosmologia incluindo elementos da teoria quântica. O novo e o antigo se misturam, até porque a magia popular de hoje será a magia tradicional de amanhã.


Esta é considerada a magnum opus de Peter J Carroll e deveria ser leitura obrigatória para qualquer magista que deseja estar a par das grandes revoluções ocorrendo no cenário do ocultismo. Até agora, considero “Understanding Chaos Magic” de Jaq D Hawkins o melhor livro para iniciantes na Magia do Caos. Mas Epoch é o melhor livro para o magista que deseja compreender profundamente a MC. É um livro múltiplo, com abordagens diferentes e originais. Inclui um deck de cartas: um universo extremamente rico em simbolismos.


Para uma excelente resenha da obra, confira o que Ramsey Dukes tem a dizer.


A tradução em português do livro está sendo encaminhada (assim como traduções para muitas outras línguas), ainda sem previsão de lançamento.


http://www.deldebbio.com.br/2015/06/18/epoch-uma-revolucao-na-magia/

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